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quarta-feira, 23 de março de 2011

Lendas do Blues: Pinetop Perkins

A nação de admiradores e intérpretes de Blues está de luto. Morreu na segunda feira, dia 21 de março, um dos últimos grandes representantes da vertente do Mississipi Delta Blues ainda vivos, o agora saudoso Pinetop Perkins.

Joseph Williams "Pinetop" Perkins nasceu no dia 7 de julho de 1913 em Belzoni, Mississipi. Quando começou a tocar, nos idos dos anos 20, seu primeiro instrumento foi a guitarra. No entanto, após uma briga com uma corista em Helena, Arkansas, teve o tendão do braço esquerdo lesionado o que o impediu de tocar o instrumento. Passou então a se dedicar ao piano e começou a tocar em um programa de rádio local chamado King Biscuit Time, sob direção do Bluesman Robert Nighthawk. Lá, ele acompanhava grandes firguras do Blues como Sonny Boy Williamson e a banda de Nighthawk, The Hawks. Continuou trabalhando com Robert até o início dos anos 50, inclusive em algumas turnês. Ele foi o primeiro a ensinar noções de piano a Ike Turner [biografia aqui].

No início da década de 50, juntou-se à banda de Earl Hooker com a qual excursionou por diversos lugares. Parou de viajar para gravar no estúdio de Sam Phillips a música Pine Top's Boogie Woogie de Clarence "Pinetop" Smith (1904-1929), cuja versão original havia sido gravada em 1928 quando Joseph tinha apenas 15 anos. De qualquer forma, isso valeu pelo apelido [Pinetop] que Joseph acabou ganhando por causa dessa música. Sempre presente naquele circuito do Blues, Pinetop largou a música e mudou-se para Illinois.

Em 1968, o velho amigo Earl Hooker conseguiu convencê-lo a voltar à ativa. No ano seguinte, substituiu Otis Spann na banda de Muddy Waters onde ficou até o final da década de 70, quando os músicos que acompanhavam Waters resolveram formar The Legendary Blues Band, que contava com Pinetop (piano), Willie "Big Eyes" Smith (bateria), Louis Meyer (harmônica e guitarra), Calvin "Fuzz" Jones (baixo) e Jerry Portnoy (harmônica). A banda gravou vários discos e serviu como apoio ao legendário John Lee Hooker no filme The Blues Brothers (Os Irmãos Cara de Pau) de 1982. Pinetop é o único da banda a aparecer em evidência no filme mais do que os outros, junto com Hooker. Quem assistiu ao filme deve lembrar daquela cena em que John Lee Hooker clama para si a autoria do clássico Boom Boom (que realmente era uma composição dele) e Pinetop replica dizendo que ele havia feito a música, começando uma "briga". Pinetop e sua turma ainda fariam turnês com alguns discípulos como Bob Dylan, Eric Clapton e os Rolling Stones. Perkins saiu para trabalhar como músico de apoio em outras gravações e em 1988 (quando estava com 75 anos) gravou seu primeiro álbum solo chamado After Hours, cuja turnê contou com feras como Jimmy Rogers e Hubert Sumlin. A banda terminou em 1993.

Em 1992, com fôlego de garoto aos 77 anos, Pinetop gravou diversos grandes temas de Blues no álbum On Top, onde contou com seu velho colega da banda de Muddy Waters e Legendary Blues Band, o gaitista Jerry Portnoy (que não tinha nada de velho, pois era o caçula da banda, tendo nascido em 1943). Em 1998, gravou o álbum Legends ao lado do já citado Hubert Sumlin.

Em 2004, Pinetop estava dirigindo seu carro pelo estado de Indiana quando foi colhido por um trem que deixou o carro em pedaços. Mas o vigoroso pianista, então com 91 anos sofreu ferimentos superficiais. Nessa época, decidiu viver o resto de seus dias em Austin, Texas. Se apresentava informalmente num clube da região. Em 2005, foi premiado com o Grammy Achievement Award, uma espécie de prêmio pelo conjunto da obra, o que lhe permitiu um lugar no Grammy Hall of Fame. Quatro anos depois, em 2008, recebeu ainda o Grammy como Melhor Álbum Tradicional de Blues por Last of the Great Mississippi Delta Bluesmen: Live In Dallas lançado naquele ano e que contava com músicos entre 89 e 94 anos (Pinetop era o mais velho da banda). Nada mal para alguém que foi testemunha da história do Blues no século 20. A coisa não acaba aí: de 2008 para cá continuou tocando incesantemente e em fevereiro deste ano, Pinetop ganhou outro Grammy de Melhor Álbum Tradicional de Blues por Joined at the Hip (2010), que contou com seu parceiro de Legendary Blues Band Willie "Big Eyes" Smith. Em uma de suas últimas entrevistas, Pinetop teria dito: "Eu não posso tocar piano como eu costumava fazer (...). Peço ao Senhor Deus, por favor, que perdoe-me pelas coisas que eu fiz tentando arranjar uns trocados".

Infelizmente, esse veterano guerreiro havia lutado sua última batalha e agora tem o descanso merecido. Finalizo este post com um versículo bíblico que penso ter tudo a ver com a trajetória de Pinetop Perkins: "Combati o bom combate, terminei a carreira, mantive a fé" (2 Timóteo 4:7).

Fonte:
Wikipedia (em inglês)

Pinetop Perkins (dir.) ao lado do grande amigo
Muddy Waters nos anos 70

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Que rolem as pedras - parte 1

Creio que se o leitor for um stonemaníaco convicto sabe que vou falar de uma das mais longevas bandas do Rock and Roll que por quase cinco décadas tem abalado as estruturas da música. vamos falar de The Rolling Stones, aproveitando o "gancho" de mais um aniversário do saudoso guitarrista e co-fundador da banda, Brian Jones que se estivesse vivo estaria completando 69 anos.

Tudo começou no início dos anos 60 quando Alexis Korner e Cyril Davies abriram um clube em Londres que era o ponto de encontro dos amantes do blues elétrico de Muddy Waters, T-Bone Walker e afins. Execrados pelos puristas do jazz e do Blues mais tradicionais, os dois músicos e sua banda Blues Incorporated tinham no Marquee o seu porto seguro, sua forma de manifestar sua musicalidade. Muitos músicos da cidade iam no clube para eletrizantes jam sessions. Muitas bandas que fizeram história no Rock Britânico dos anos 60 tiveram origem nesses encontros musicais.

Entre os frequentadores assíduos estavam Mick Jagger (vocais, gaita) e Keith Richards (guitarra), grandes amigos de infância que tiveram na música de Chuck Berry um ponto em comum. Ao conhecerem o baixista Dick Taylor começaram a por em prática sua vontade de formar uma banda de Rhythm & Blues. Numa das apresentações do Blues, Inc., conheceram o guitarrista slide  ocasional da banda Brian Jones, que também tocava gaita e sax como ninguém. Conversa vai, birita vem, os quatro descobriram afinidades e decidiram formar uma banda juntos, chamando o pianista da casa Ian Stewart e o baterista Tony Chapman. Começaram a ensaiar juntos e logo estavam tocando no Marquee. faltava um nome para a banda, que foi sugerido por Brian: The Rollin' Stones, em citação a um blues de Muddy Waters. Assim, em algumas apresentações, a banda era conhecida como Micky Jagger & Brian Jones & The Rollin' Stones. Mesmo havendo uma certa incompatibilidade no repertório (Jones e Stewart eram aficcionados pelo genuíno Blues de Chicago e Jagger e Richards seguiam a cartilha de Chuck Berry e Bo Diddley), a banda começou a chamar atenção. Foi aí que Giorgio Gomelski, dono do Crawdaddy contratou abanda para ser residente em seu clube. Ele foi o primeiro empresário da banda. Dick Taylor deixou a banda para se dedicar ao estudo de artes e mais tarde formou outra grande banda britânica, The Pretty Things. Chapman foi outro que saiu para formar sua própria banda [The Preachers que se tornou mais conhecida na história por ser a primeira banda do futuro rockstar britânico Peter Framptom], não antes de apresentar ao grupo Bill Wyman, um baixista veterano que acabou sendo aceito para o lugar de Dick Taylor por um motivo banal: ele tinha dois amplificadores. Uma coisa que poucos sabem sobre Wyman é que ele criou ao acaso o baixo elétrico sem trastes. Para a vaga de Chapman, Mick e Brian chamaram o baterista do Blues Incorporated Charlie Watts, que tinha sido cogitado quando da formação da banda mas devido ao compromisso com o Blues Inc. acabou recusando de início.

Não demorou para a fama dos Rolling Stones (decidiram usar o nome desta forma) correu pela Inglaterra. Foi aí que entrou em cena o secretário de Brian Epstein, o empresário dos Beatles. Andrew Loog Oldham, que cuidava da publicidade dos Fab 4, tinha ouvido falar que o Crawdady havia uma banda com ótimo potencial. Apesar dos tenros 19 anos de idade, Oldham tinha um tino inato para os negócios. Como era menor para as leis britânicas, teve que ter um "testa de ferro" chamado Eric Easton que assinava documentos até que Andrew atingisse a maioridade legal. Ele acabou assinando um contrato com a banda, mesmo sem consultar Gomelski, que não tinha nenhum tipo de contrato formal com os Stones.

Oldham criou uma imagem marginal para os Stones, uma antítese à pose de bons moços dos Beatles, usando o fato de que Brian tinha vários filhos bastardos. Foi nessa época (1963) que os Beatles apesar da fama consolidada eram assíduos frequentadores da cena londrina conheceram seus "rivais" [outro golpe publicitário de Oldham]. Outra providência no novo empresário foi a saída de Ian Stewart como membro efetivo da banda, pois sua imagem não condizia com os Stones [falando no popular: o pianista era muito feio]. Mas poderia atuar como road manager e músico ocasional. Uma espécie de "sexto Stone".

Eles fizeram um teste para a Decca Records e foram contratados [reza a lenda que George Harrison teria aconselhado os executivos da gravadora a não cometerem o mesmo erro do passado ao recusarem os Beatles]. A raposa Oldham tornou-se produtor da banda e fez com que a gravadora aceitasse uma cláusula contratual que permitisse que os Stones utilizassem material de outras gravadoras. Ele queria que o som da banda soasse o mais precário possível, fora da atmosfera clean da Decca.

O primeiro single da banda foi lançado em 1963 e consistia de um cover de Chuck Berry, Come On e no lado B I Want To Be Loved de Willie Dixon, que chegou pertinho do Top 20 britânico.

O segundo single da banda, gravado no mesmo ano, I Wanna Be Your Man foi escrito por ninguém menos que Lennon & McCartney, principais compositores dos Beatles. O lado B foi Stoned, uma composição de Mick e Keith assinada com o pseudônimo Nanker Phelge. Aliás, quanto a este disco cabe uma história história interessante. A música teria sido feita por Paul e oferecida aos Stones, que acharam que ela estava meio incompleta. Enquanto John e Paul andavam com os Stones, os dois completaram a canção, o que deixou Mick e Keith impressionados. Reza a lenda que a parceria Jagger/Richards como compositores nasceu naquele momento. Resumo da ópera: o single chegou perto do Top 10 das paradas. Nos EUA, ela foi lado B do single Nor Fade Away (um cover de Buddy Holly com uma levada bem ao estilo de Bo Diddley).

Continua no próximo post

Tirem as crianças da sala! Chegaram os Rolling Stones!

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fausto toca Blues

Não, o Faustão da TV não toca gaita ou guitarra e nem usa chapéu preto nas horas vagas.

Um homem que almeja grande conhecimento e poder faz um pacto com o diabo e acaba sendo passado para trás pelo "tinhoso". Isso soa familiar? Trata-se da lenda de Fausto, que se tornou grande obra da Literatura Universal graças ao escritor alemão Wolfgang Goethe. Aí veio a ópera de Franz Lizt, teses psicanalíticas e até um episódio do Chapolin Colorado (!!!). Mas, o que tem Fausto a ver com o Blues? Acompanhem a biografia de Robert Johnson nas próximas linhas.

Robert Leroy Johnson nasceu no dia 11 de maio de 1911 numa localidade chamada Hazzlehurst no estado do Mississipi. Alguns dos pesquisadores sobre sua biografia chegaram à conclusão que os dados fornecidos sobre sua data de nascimento são imprecisos e a própria vida do músico foi cercada de lendas, sendo que depoimentos de alguns de seus contemporâneos ajudaram a entender um pouco sobre ele.

Ele era filho de Julia Major Dodds e Noah Johnson. Sua mãe casou-se depois com um próspero proprietário de terras e fabricante de móveis chamado Charles Dodds, que acabou tendo que fugir sob a ameaça de linchamento por  outros latifundiários brancos. Julia mudou-se para para outro lugar, levando consigo o pequeno Robert e acabou deixando-o com o padrasto (que mudou o nome para Charles Spencer) em Memphis no Tennessee. Johnson só foi reencontrar a mãe em 1919 quando ela estava em outro casamento em Lucas, Arkansas. Ele acabou sendo rebatizado como Robert Spencer. Em 1924, o menino começou a estudar numa escola local onde ficou por três anos anos, sendo um bom aluno. Nesse meio tempo, ele começou a aprender a tocar gaita. Em 1929, casou-se com Virginia Travis, sua namorada de apenas 16 anos. Nessa época, reza a lenda que Robert teria feito um pacto com o diabo para se tornar um ótimo guitarrista. Segundo o pesquisador de Blues Robert "Mack" McCormick levantou junto a alguns contemporâneos de Johnson, graças a esse acordo selado com o cão, o músico teria sido penalizado com a morte da esposa e do filho ainda não nascido por tão profano ato, aliado ao nome de algumas canções que ele gravou como The Cross Roads Blues, Me and The Devil Blues e Hellroaund on My Trail [daí a conexão do mito de Fausto com o Blues]. Naquele momento, nada mais segurava Johnson no lugar onde vivia e ele foi tentar a vida como músico itinerante. Ele bebeu muito na fonte de grandes lendas do Blues como Son House (que ensinou-lhe suas primeiras noções de guitarra), Charley Patton e Leroy Carr, entre outros. Era notório que Johnson tocava com uma técnica que assombrava a todos os músicos da época.

Em 1936, ele entrou num estúdio pela primeira vez e gravou algumas sessões de gravação, onde deixou seu único registro fonográfico (cerca de 20 músicas), os quais seriam lançados alguns em vida e outros postumamente. É notório que Robert John não usufruiu no êxito de suas gravações mas foi influência de grandes nomes do Blues como Howlin' Wolf, Muddy Waters e Sonny Boy Williamson, que tocou em sua banda.

Robert Johnson morreu em 16 de agosto de 1938, gerando uma série de lendas quanto ao acontecimento. Ele teria morrido ao beber um whisky "batizado" com veneno, cortesia de um dos muitos maridos traídos, seus desafetos. Outras histórias: que o veneno ele teria tirado de letra mas morreu de pneumonia dias depois; elel teria morrido de sífilis e até assassinado a tiros.

Os anos se passaram e Robert Johnson conseguiu postumamente reconhecimento como o maior cantor de Blues de todos so tempos além de uma legião de admiradores como Eric Clapton e Keith Richards, para ficarmos nos principais. Algumas de suas composições foram regravadas como Dust My Broom (Rolling Stones), Cross Roads Blues (Cream) e Sweet Home Chicago (Blues Brothers, Memphis Slim).

Fonte:
Wikipedia (em inglês)

Robert Johnson: Faust plays the Blues